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O vazamento da Hydro no Brasil: o que realmente está acontecendo?

Diante de multas e sanções pesadas, a Norsk Hydro afirma que não houve vazamento dos reservatórios de lama vermelha, mas apenas de águas pluviais da área de fábrica. Tento aqui resumir os três dias que passei em Belém e Barcarena.

 

As instalações da Hydro em Barcarena – PA, com a refinaria de alumina Alunorte em destaque. À direita, o antigo reservatório de lama vermelha, na forma de um feijão. Mais à direita (à direita da estrada em amarelo), fica o novo reservatório. Imagem: Google Maps.

 

Uma semana de muita água e trovoadas políticas

Tudo começou com chuvas torrenciais especialmente fortes nos dias 16 e 17 de fevereiro, e acusações de vazamento da fábrica da Hydro/Alunorte, em Bacarena, no Pará. Felizmente não há relatos de mortes ou contaminação direta de pessoas. No dia 23 saiu o laudo do do Instituto Evandro Chagas, dizendo que houve vazamento. Em seguida, entraram em cena o ministro de meio ambiente, Sarney Filho, o Ibama e outros com multas que somam 20 milhões de reais, além da exigência de redução de 50% da produção da Alunorte. É uma crise gigantesca para a Hydro.

 

Um caso complexo

Este suposto vazamento envolve muitas questões sobre os quais gostaria de escrever: sobre a pobreza e as péssimas condições de vida em Barcarena, sobre as isenções fiscais para as mineradoras, sobre a ingerência política e as doações de campanha, sobre a mídia e os «gringos» e sobre a desforra diante das críticas públicas que a Noruega fez ao desmatamento da Amazônia, ano passado. Não dou conta de tudo agora, vou me concentrar no tema mas concreto e volto a falar dos outros depois. Portanto;

 

Vazou ou não vazou?

A Hydro despejava resíduos dos reservatórios de lama vermelha por uma tubulação secreta? Ou foi a água da enxurrada que escapou por um cano antigo, fora de uso, mas mal tampado? Os relatos da Hydro e da mídia brasileira não poderiam ser mais divergentes.

 

A tubulação clandestina do qual tanto se falou na mídia. Foto: Instituto Evandro Chagas

 

Depois de ler o relatório do Instituto Evandro Chagas, conversar com jornalistas e pesquisadores que estiveram na área, e com moradores vizinhos, acredito que ocorreu o seguinte: as chuvas pesadas provocaram uma inundação na fábrica da Hydro. A água acumulada ao redor da fábrica arrastou consigo pó, sujeira e lama. Na parte mais baixa da fábrica, a água acumulada escorreu por o cano antigo, do qual tanto se falou na mídia, e escorreu pela encosta abaixo. A questão é: quanta água escapou e qual o nível de contaminação? Isso ninguém sabe. A Hydro diz que foi muito pouco, apenas alguns metros cúbicos. As medições externas não demonstram, segundo a Hydro, nenhum sinal preocupante de contaminação.

Por outro lado: medições do Instituto Evandro Chagas mostram uma concentração mais alta de alumínio, chumbo e outros materiais nas amostras de rios, córregos e poços nas áreas circunvizinhas à Hydro. Eu li os relatórios e pedi a colegas que trabalham com qualidade da água para analisá-los. O que está lá é muito menos do que o IEC declarou publicamente, e que serviu como base para as acusações do ministro do meio ambiente e tantos outros. Ninguém duvida os resultados das análises, mas não é possível estabelecer causa – efeito que convince.

Na imprensa, o pesquisador Marcelo Lima, do IEC, disse que a Hydro construíra um cano para despejar resíduos direto na natureza. Acredito que isso não é verdade. Conversei com várias pessoas que viram esse cano e afirmam que ele é antigo, e confiam mais na versão da Hydro.

 

«Indícios de transbordamento», segundo o Instituto Evandro Chagas. «O sistema funcionando como planejado», segundo a Hydro. Foto: Instituto Evandro Chagas

 

Muitas imagens e vídeos que circulam mostram uma água avermelhada escorrendo sobre barragens. É assim, ainda segundo a Hydro, que o sistema funciona sob chuvas fortes. A água é represada por outras barragens externas e canalizada para tratamento. De novo: as pessoas com quem falei e que estiveram na área acreditam nessa versão.

 

20 milhões em multas — por quê?

As multas aplicadas pelo Ibama não têm a ver com o vazamento. Uma multa de R$ 10 milhões está relacionada a falta de licença para usar o novo reservatório de lama vermelha (veja imagem acima). A Hydro tinha permissão para construir e testar o reservatório, mas não para operá-lo. Neste caso, parece que a empresa passou a utilizá-lo em larga escala sem ter a devida permissão. A segunda multa de R$ 10 milhões foi aplicada “por operar tubulação de drenagem também sem licença.”

R$ 20 milhões é trocado para a Hydro, que teve um superávit de bilhões no ano passado. O que realmente pesa é a ordem da redução 50% da produção da Alunorte, exigência da Secretaria Estadual de Meio Ambiente do Pará (SEMAS). Isto, sim, pode causar prejuízos econômicos muito grandes para a empresa. Esta pena foi aplicada porque a Hydro não conseguiu reduzir o nível da água nos reservatórios no prazo determinado. A Hydro foi obrigada a manter uma distância mínima de um metro do topo da parede do reservatório, mas não logrou fazê-lo a tempo.

 

Então que REALMENTE aconteceu?

Há várias coisas que aconteceram ao mesmo tempo. O vazamento — pequeno ou grandes, e a Hydro culpada ou não — têm sido objeto de grupos distintos que defendem seus respectivos interesses. Isto ilustra o enorme desafio que é operar uma indústria que causa necessariamente impactos ambientais negativos no Brasil. E é assim que deve ser. Mais ainda sendo o caso de uma empresa estrangeira, mas isso também é perfeitamente OK.

A Hydro tornou-se o melhor exemplo da dupla face da Noruega na Amazônia. Investimos três bilhões de reais na proteção da floresta através do apoio que damos ao Fundo Amazônia. Isso é ótimo. Mas, ao mesmo tempo, a Noruega S/A (empresas privadas, o Fundo de Petróleo e a participação acionária do Estado em empresas privadas) investe cinco a dez vezes mais que isso em setores que destroem essa mesma floresta.

Na mídia brasileira, a Noruega está sendo acusada de hipocrisia. Eu concordo. A Noruega deve começar a investir mais em energias renováveis e indústrias sustentáveis, e menos em empresas poluidores e fontes de energia fósseis.

 

Acompanhe mais detalhes em www.BrasiLeira.no:

Forurenser Hydro drikkevann i Amazonas?

 

Nota sobre a minha parcialidade

Para mim esta é um questão delicada. Eu trabalha na universidade de Oslo, num projeto financiado pela Norsk Hydro, realizando pesquisas ambientais na área da mina de bauxita da Hydro em Paragominas, 250 km ao sul de Barcarena, onde o vazamento ocorreu. Conheço, portanto, as operações da Hydro em Paragominas muito bem, e me reúno com funcionários ambientais da Hydro em Oslo três ou quatro vezes ao ano. No domingo, percorri Barcarena de um lado a outro na garupa de um mototáxi. E conversei pessoalmente com o maior número de pessoas possível em Barcarena e Belém.

 

Traducão de norueguês: Leonardo Pinto Silva.

Muito obrigado!!!

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Published on: 10. mars 2018

Filled Under: Hydro, næringsliv, Norge-Brasil, português

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